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  • "Jazzy Bird": Sentir-se “em casa” numa “casa de jazz” no Mindelo
    Esta é uma história de amizade e amor pela música. O bar Jazzy Bird tem 25 anos e espelha o espírito do Mindelo, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde. Aqui ouve-se simplesmente música e convive-se. Vou Monteiro, sócio-gerente do espaço, contou-nos essa história, momentos antes de mais um concerto ao vivo. Vou Monteiro nunca está quieto, muito menos antes de um concerto no seu bar, ou melhor, no passeio lá fora que rapidamente se enche para ouvir os músicos que ele convida. Estamos no Jazzy Bird, uma aventura com 25 anos que espelha o espírito do Mindelo, na ilha de São Vicente. Aqui ouve-se simplesmente música e convive-se. Esta noite, o "cabeça-de-cartaz" é Bau, um dos músicos da terra mais conhecidos e um “homem da casa”, já acarinhado pelo público do Jazzy Bird. Tendo em conta os 25 anos de existência e resistência, o bar pode ser considerado histórico mas é, antes de mais, uma história de família, amizade e amor pela música. “Uma das coisas que tornou este espaço histórico é esse tempo de existência, já lá vão 25 anos que estamos aqui”, começa por contar Vou Monteiro quando questionado se o Jazzy Bird é um ponto histórico do convívio e da música no Mindelo. A história começa quando era ainda menino porque o espaço é a antiga casa da avó, onde viveu. Um dia, ele e um amigo de infância, ambos “apaixonados pela música”, têm a ideia de transformar o espaço num bar que se distinguisse dos habituais botequins. Um bar para as pessoas sentarem e conviverem, diz. Vou Monteiro trabalhava na delegacia de saúde e não tinha “nenhuma queda para este tipo de negócio”. Mesmo assim, quando esse amigo Alexandre Novais estava de férias no Mindelo, decoraram o espaço, meteram “um frigorífico, três mesas”, e, num dia de Carnaval, a 27 de Fevereiro de 1997, decidem abrir. “Esse amigo que estava aqui de férias disse: ‘É hoje que vamos abrir!’ Viemos aqui os dois com as bebidas locais, o ponche, o grogue… Era uma coisa que faltava em São Vicente porque não havia um espaço assim, onde as pessoas podiam sentar para conviver, para falar um bocadinho. Em São Vicente, sempre existiu aquilo que se chamava um botequim, com um balcão, as pessoas ficavam em pé, tomavam uma bebida e saíam de imediato. Esse conceito de sentar, conviver, nesse estilo de ‘pub’ não existia”, recorda. Passado alguns anos, o Jazzy Bird começa a ter música ao vivo graças à motivação de outro amigo vindo de Portugal, o saxofonista Teck Duarte, ainda hoje homenageado por uma enorme fotografia no Jazzy Bird. “Ele fez toda a sua caminhada em Portugal, a tocar em grandes hotéis, em grandes espaços. Quando resolve regressar para a terra, ele já me conhecia desde menino, e no primeiro ou segundo dia que chegou, parou o carro aqui em frente, nessa porta, chamou-me, ai e tal, cumprimentou e disse: ‘Eu regressei, aqui é o local ideal para eu vir tocar aqui.’ Eu respondi: ‘Não Teck, aqui não vamos fazer nada disso porque não tenho estrutura, não tenho mesa de som, não tenho nada’. E ele: ‘Deixa por minha conta’”. E foi assim que começaram a soar as notas ao vivo no bar. Primeiro, era o Teck Duarte sozinho, depois era ele e outros companheiros com o projecto Som das Ilhas. Seguiu-se o quarteto da nova geração de músicos Khaly Angel, Buna Lima, Yvan Medina e Kis Oliveira. A lista de artistas que por ali passaram, e passam, é longa, mas não se pode esquecer Bau, que toca no dia desta entrevista, nem Hernâni Almeida, na origem de outro projecto de Vou Monteiro. É precisamente com o guitarrista Hernâni Almeida e o amigo Alexandre Novais que Vou Monteiro cria o Mindel Summer Jazz, que já teve 9 edições e levou vários músicos dos quatro cantos do mundo ao Mindelo. Ou seja, tudo começou na casa da avó que se transformou numa casa da música ao vivo, “um local pequeno onde as pessoas se sentem em casa”. “Se já conseguimos resistir até aqui, agora é ir para a frente”, conclui Vou Monteiro, antes de ir correr ajudar os músicos a fazerem o “sound check” para mais um concerto. Oiça aqui a entrevista:
    4/25/2022
    11:05
  • Yuran Henrique: Contemplar para pintar em Cabo Verde
    Yuran Henrique é uma das vozes da nova geração de artistas plásticos cabo-verdianos. O pintor e escultor tem patente uma exposição no Centro Cultural do Mindelo, na ilha de São Vicente, intitulada “Estação das Águas”, pouco depois de ter estado no mesmo espaço ao lado de Tchalê Figueira e de Bento Oliveira.  Há pinturas em pano, esculturas em ferro, instalações, obras penduradas com molas e ironia, ideias tiradas da iconografia popular e que fazem simplesmente parte de um dia-a-dia comum a todos, mas que a todos falta contemplar. Yuran Henrique tem esse sentido contemplativo. O jovem artista, de 29 anos, é natural de São Vicente e desde muito cedo se interessou pela ilustração e arte urbana. “Comecei com a ilustração e com uma prática mais urbana. Eu não estudei arte e fui entendendo o que estava em torno de mim em termos de arte”, conta. “A escultura e a pintura são algo muito recente na minha vida. É fruto de uma pesquisa, é fruto de um entendimento no sentido de me conhecer a mim mesmo. Sempre estive a pesquisar o que é que eu podia fazer que viesse do meu pensamento e da minha maneira de entender o espaço onde vivo e a maneira como vejo o mundo”, explica. Nas suas obras, ele parte “de uma experiência de vida” e todo o espaço à volta pode servir de mote para pintar. “Uma parede descascada, o mar, o entorno em que estou servem de inspiração. E uso metáforas para falar de psicologia humana, da nossa fragilidade, do corpo que tem outras dimensões”, descreve, sublinhando que “são várias as realidades que justificam a tua realidade”. Yuran Henrique aponta como a sua principal referência o artista plástico cabo-verdiano Bento Oliveira, ao lado de quem esteve recentemente exposto também no Centro Cultural do Mindelo. “Desde muito cedo, comecei a frequentar o atelier dele [Bento Oliveira] e a entender um pouco da sua filosofia de vida e de entendimento da arte visual. Aprendi muito da arte visual com o Bento Oliveira. É dos meus artistas preferidos a nível mundial”, reconhece. Em 2016, Yuran Henrique fez parte do coletivo de artistas plásticos que participou na mostra de “Artes visuais – Cabo Verde Contemporâneo 2016”. No mesmo ano, o artista faz sua primeira exposição individual “Artérias do tempo”, em parceria com a Câmara Municipal da Praia. Em Abril de 2017, inaugurou a exposição “Reversos” no Palácio de Cultura Ildo Lobo, também na Praia, e em Julho do mesmo ano, participou na Bienal de Jovens Criadores da CPLP, em Portugal. Em Novembro de 2017, Yuran Henrique realizou uma nova mostra de pintura intitulada “Mitografias”, durante o festival de teatro “Mindelact”. Em 2018, expôs no Centro Atlântico de Arte Moderna de Gran Canaria e participou na exposição colectiva da XII Conferência dos Chefes de Estado da CPLP. Em 2019, Yuran Henrique esteve nas exposições colectivas “Palácio Fora de Portas” e “Jovens Talentos” e participou em várias residências artísticas nacionais e internacionais. É, ainda, cartoonista do jornal cabo-verdiano Expresso das Ilhas desde 2018.
    4/19/2022
    8:07
  • Cabo Verde: “Neve Insular” é artesanato de utopia e resistência
    Rita Rainho e Vanessa Monteiro partiram de uma semente selvagem para fiar uma história de resistência cultural, memória e utopia no Centro Agro-ecologico do Madeiral, no interior da ilha de São Vicente, em Cabo Verde. As designers e investigadoras criaram o projecto Neve Insular, a partir da semente do algodão, que resgata saberes tradicionais e invoca a história da escravatura e da resistência. As designers Rita Rainho e Vanessa Monteiro criaram um projecto de arte e artesanato que cruza os saberes ancestrais com a memória crítica do ciclo do algodão. As investigadoras partiram do algodão para fiar uma história de resistência cultural, memória e utopia no Centro Agro-ecologico do Madeiral, no interior da ilha de São Vicente, em Cabo Verde. O algodão é uma fibra de cultivo milenar que recorda um passado em que as pessoas escravizadas transformavam o algodão em artesanato em Cabo Verde e cujos saberes foram também transportados para o Brasil durante esse tráfico de seres humanos. Algo que esteve também na origem da criação do quilombo de Conceição das Crioulas, no Brasil, quando no século XIX, seis fiadeiras negras compraram as terras em que estavam graças à venda dos produtos que faziam à mão. Esta história de luta e resistência tem sido investigada por Rita Rainho e inspira a “Neve Insular”. O projecto começou em 2018, quando Rita e Vanessa começaram a estudar os padrões da panaria tradicional cabo-verdiana para o salão “Created em Cabo Verde” do Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design. Quatro anos depois, a "Neve Insular" resiste e fomos conhecê-la durante uma feira de artesanato no interior da ilha de São Vicente. “Este projecto surge em 2018 no âmbito da participação no salão ‘Created em Cabo Verde’. Na altura, o tema era o padrão da panaria cabo-verdiana. Um dos padrões mais singulares da panaria tradicional é o símbolo estilizado do capulho do algodão. Ficámos intrigadas sobre esta figura do algodão e começámos a rever um bocadinho aquilo que é a história tanto da ocupação das ilhas, quanto do seu envolvimento no tráfico de pessoas escravizadas entre o Atlântico”, começa por explicar Rita Rainho. “Nesse mergulho na história, em rever um pouco essa importância da panaria, percebemos que o papel do design e das artes teria de ser muito além de criar um objecto para participar nesse salão. É  assim que surgiu um projecto utópico de voltar à semente do algodão e implementar um projecto que tem três eixos: o agrícola, onde plantamos algodão numa plantação biodiversa e agro-ecológica; a dimensão educativa, onde trabalhamos com as crianças do vale e jovens da área da educação artística, professores da cidade, agricultores e agricultoras; e, depois, a dimensão artística em que temos desafiado artesãos, artesãs, designers, pesquisadoras e as próprias agricultoras a fazerem parte de um processo criativo que vai além de criar objectos mas que procura envolver todas estas dimensões”, continua a designer. Vanessa Monteiro explica que para “agilizar o processo de transformação do algodão”, começaram por criar equipamento na ilha. Pediram a um carpinteiro para fazer um descaroçador de algodão, a partir de um modelo japonês, e a um artesão para criar os fusos em madeira de figueira. Apenas foram importadas as cardas.  “O processo começa com a colheita no centro agro-ecológico do Madeiral, que é uma parceria com a Associação Agropecuária do Calhau e do Madeiral. Portanto, fazemos a colheita. Depois deixamos o algodão a descansar para que os bichinhos que vivem neles vão saindo. Depois disso, passamos o algodão no descaroçador que separa a fibra da semente. A seguir, passamos pelas cardas, que são como umas escovas compostas por duas partes, em que através de algumas passagens vamos tirando as impurezas e limpando a fibra. No fim dessa passagem das escovas, elas saem numa forma de tubinho de fibra que é depois passado para a fiação manual através do fuso. Uma das coisas também que nos foi sugerida no processo foram os pires em madeira para permitir que o fuso não saia do lugar. Após isto, temos também o trabalho no tear manual”, descreve Vanessa Monteiro, mostrando como resultado uma banda de algodão fiado. A plantação de algodão em São Vicente é mais do que uma plantação em agroecologia. Segundo Rita Rainho, é “uma área de encontro, de pesquisa, de experimentação e de vivência e prática coletiva de arte e design” que acontece entre agricultores, artesãos, designers, arquitectos, professores, alunos e famílias. Sem esquecer as possibilidades de troca de ideias/artesanato do Quilombo das Crioulas com as ilhas. Ou seja, "Neve insular" é um projecto que vai mais além de “não deixar morrer a tecelagem”, como defendiam, nos anos 70, os fundadores da Cooperativa Resistência e do Centro Nacional de Artesanato. “É um laboratório que serve para seguir as bases de experimentar a agricultura biológica, fazer trocas e partilhas do ponto de vista criativo e o facto de termos tido algumas residências artísticas com alguns designers e artistas têxteis, leva-nos a entender que o processo é bastante demorado e, por isso, não temos a pressa de comercializar. Contudo, temos noção que, também pelo custo, estas peças orientam-se mais para o mercado das artes (…) Este ano, o objectivo é começar a aplicar em projectos de design de autor, numa quantidade bastante limitada. Mas a ideia é responder nestes dois sentidos: design de autor e peças para um mercado mais artístico”, conclui Vanessa Monteiro.
    4/13/2022
    6:43
  • Cabo Verde: A história esquecida do campo de concentração de São Nicolau
    O escritor cabo-verdiano José J. Cabral tem trabalhado, nos últimos anos, para a divulgação de uma história “esquecida durante muito tempo”: a do antigo campo de concentração de São Nicolau, em Cabo Verde. Por lá teriam passado “mais de 250” resistentes antifascistas e foi, em 1931, um dos primeiros espaços de encenação de um campo de concentração para deportados políticos portugueses, poucos anos antes do Campo de Concentração do Tarrafal da ilha de Santiago. Esta é uma história que “ficou lá esquecida durante muito tempo”, começa por explicar o escritor cabo-verdiano José J. Cabral que se tem dedicado a estudar e a tentar reabilitar a memória do antigo campo de concentração da ilha de São Nicolau. Uma história que gostaria de ver integrada na candidatura do antigo Campo de Concentração do Tarrafal da ilha de Santiago a Património da Humanidade. Mas já lá vamos.   Lembrando a tese de mestrado de Victor de Barros, “Campos de concentração em Cabo Verde: as ilhas como espaços de deportação e de prisão no Estado Novo”, José J. Cabral explica que, em 1931, a ilha de São Nicolau foi um dos primeiros espaços de encenação de um campo de concentração para deportados políticos portugueses desterrados para Cabo Verde. Mais ainda, foi aí que se fez a montagem do primeiro cenário para a fortificação de uma prisão para deportados políticos, ou seja, para a materialização do primeiro modelo de prisão especial em que a ilha deixava de ser simplesmente uma “Ilha Prisão” para se passar a ter uma verdadeira “Prisão na Ilha”. “Eu admito que seja o regime político que terá destruído os arquivos. Não há bibliografia sobre a história de São Nicolau e, por isso, ficou lá esquecida durante muito tempo até surgir uma conferência promovida pela Fundação Mário Soares e que tinha como recomendação ‘Destapar os Tarrafais’, em 2009. Quando comecei a falar disso houve muita contestação, com pessoas aqui, académicos inclusivamente, a defenderem que não houve um campo de concentração na ilha de São Nicolau, mas prova-se, afinal, que houve sim um campo de concentração”, afirma José J. Cabral. O escritor sublinha, então, que esta “foi a primeira experiência portuguesa de encarceramento em regime fechado” porque “até esta altura, Portugal utilizava ilhas como prisões, portanto, não havia prisões físicas de parede”. “Vai-se ensaiar em São Nicolau o novo modelo prisional. De facto, existiu e precisa de ser conhecido esse campo”, sublinha. O campo de concentração de São Nicolau foi concebido devido à necessidade de internamento dos revolucionários que tomaram parte activa na revolta da Madeira de 1931, um movimento que – como lembra Victor de Barros “também se propagou aos Açores e à então colónia da Guiné”. “Se, historicamente, uma das respostas da Ditadura foi a deportação em massa da maioria dos revoltosos envolvidos, também não é menos verdade que o regime endurece os mecanismos repressivos através do internamento dos deportados na ilha de S. Nicolau. Reprimir a revolta através da deportação constituía um dos meios de abortar novas investidas contra o regime e contra a ordem política”, pode ler-se na tese. É o que nos reitera José J. Cabral, ao explicar que "depois da revolta da Madeira, em 4 de Abril de 1931, decide-se tentar um outro modelo para prender as pessoas”. Primeiro, vão parar ao “Lazareto, um espaço confinado que havia na Praia, mas não tinha grande segurança”. Depois, decidem transformar o antigo Seminário-Liceu de São Nicolau, “um edifício amplo, de dois pisos, com várias dependências e que era fechado, com muros à volta de três, quatro metros” no “primeiro ensaio de confinamento, de deportação em regime fechado”. “Quando o campo esgotou a sua capacidade, construiu-se um outro campo de concentração no Tarrafal de São Nicolau com casernas pré-fabricadas alemãs para onde vão parte dos deportados que entretanto continuaram a chegar”, acrescenta. Neste campo, teriam passado “mais de 250 pessoas”, porque “havia remanejamento, de vez em quando os presos de São Nicolau eram enviados para Angola ou Timor-Leste”, mas “fixos havia mais de 100 ou 150”. As condições de vida dos deportados portugueses “eram terríveis”, num “regime fechado e muito severo”, com cerca de 70 guardas angolanos - “armados até aos dentes” - a vigiar o campo, no qual “morria gente de tuberculose”, a comida era "podre", “não havia saneamento, pouca água” e zero informação. Ou quase. “A entrada de informação era de tal forma censurada que essa gente presa – alguns deles gente notória: general de exército, médicos, professores universitários, advogados – tinham que ficar à espera que viesse um pedaço de papel de jornal, com que o carcereiro ou oficial tivesse limpado, para limpar o papel de fezes para ter um pouco de informação. Chamavam a isso Rádio de Merda”, continua José J. Cabral. Com os problemas de logística, decide-se regressar “a um regime semi-aberto” para os deportados e desenvolve-se “uma tremenda interação social na ilha com namoros e mudança de hábitos, comportamentos”. Cerca de um ano e meio depois e, por “pressão internacional de jornais L’Humanité, Le Monde e do Colonial New Bedford”, dá-se uma amnistia a 5 de Dezembro de 1932 que “liberta parcialmente deportados”. Porém, “é uma amnistia um bocado esquisita porque decreta simultaneamente residência fixa para alguns”, ou seja, “uma parte ficou ainda presa na ilha-prisão e vai ficar até 1951, mais vinte anos, até ter uma segunda amnistia”. Mas, nessa altura, “boa parte deles que estavam lá já tinham constituído família".   O que resta, hoje, do campo de concentração da ilha de São Nicolau? Na altura, o campo estava dividido em dois segmentos: um era o edifício do antigo Seminário-Liceu que está “mais ou menos preservado” e o outro era em Tarrafal onde havia “casernas pré-fabricadas alemãs” que eram “de madeira sob pilastras” e de que sobram apenas as bases porque as casernas tinham sido transferidas para o Tarrafal de Santiago, inaugurado em 1936. Ou seja, do Tarrafal de São Nicolau sobram apenas “uns pequenos vestígios neste momento” e o espaço está “totalmente abandonado, sem uma placa”. José J. Cabral sublinha que até “é contraditório porque na vila do Tarrafal de São Nicolau encontram-se placas a indicarem o campo de concentração e chega lá e não há rigorosamente nada”. O escritor espera que o antigo campo de concentração de São Nicolau integre a candidatura do Tarrafal de Santiago a Património da Humanidade, algo por que tem lutado desde 2011. Nesse ano, ele explica que, com base no trabalho de Victor de Barros, se assinou “um protocolo tripartido entre a Câmara Municipal do Tarrafal de São Nicolau, a Câmara Municipal do Tarrafal de Santiago e o Instituto do Património Cultural para trabalhar esse pacote como uma coisa só porque, na realidade, é o mesmo campo com duas fases”. “São Nicolau é o ensaio do que a vem a suceder no Tarrafal [ilha de Santiago], portanto, estamos perante o mesmo projecto e faria todo o sentido”, sustenta. Porém, José J. Cabral diz não ter feedback por parte do governo. “Eu já escrevi ao ministro, já escrevi a toda a gente, estou à espera que eles considerem essa possibilidade porque, do meu ponto de vista, só enriquece a candidatura pela notoriedade das figuras que estiveram em São Nicolau, pelo facto de ser um ensaio, pelo facto de remeter-nos para a Primeira Guerra Mundial”, acrescenta.   Quem são os "heróis esquecidos"? Este é um outro capítulo essencial à história do campo de concentração de São Nicolau: muitos dos deportados portugueses tinham lutado na Primeira Guerra Mundial, como “o general Adalberto Gastão Sousa Dias, o tenente Camões e o Silvo Pélico”. Além de terem estado na Primeira Grande Guerra, José J. Cabral diz não ter dúvidas que eles foram, depois, “precursores do 25 de Abril” porque “começaram a revolta de 1926 no Porto, a outra revolta de 1927, a revolta da Madeira”. “Depois, houve sucessivas revoltas, mas eles foram os que começaram a lutar e terão sido eles os precursores. Eu acredito absolutamente, não duvido disso”, sublinha. São “heróis esquecidos”, resume o escritor. Por exemplo, o tenente Camões tem “uma história de vida fantástica”. Ele “pediu ao pai para o emancipar para ir para a Primeira Guerra Mundial” e, no regresso, depois de terminar o curso de Medicina na Universidade de Coimbra, foi para o exército lutar contra o regime do interior e aquando da revolta da Madeira, em que ele era suposto “ir lá para abafar a rebelião”, juntou-se à revolta. Daí ter sido deportado para Cabo Verde. O tenente Camões “é rigorosamente esquecido em Portugal” mas em São Nicolau “era conhecido e venerado como o doutor do povo” que “palmilhava a ilha a pé para cuidar das pessoas” e “nos anos 40, vinham os pobres, com fome, sem dinheiro para comprar medicamentos, e ele dava um bilhete e dizia: vá à farmácia, vá aviar, que eu pago no final do mês”. Maria Teresa, filha do tenente Camões, corrobora o relato, lembrando que “contam que ele organizava filas para distribuir um bocado de comida às pessoas famintas”. Em contrapartida, o pai “não falava muito” da Primeira Guerra, nem da revolta da Madeira, nem do campo de concentração, mas “falava muito da fome, das doenças, da miséria que o povo de São Nicolau sofreu”. “E ele lutou muito” para ajudar, relembra. Mas “não era homem que andasse atrás de homenagens”, conclui.
    4/12/2022
    19:34
  • Bau: “O cabo-verdiano tem o dom da música”
    Rufino Almeida, conhecido como Bau, é uma figura incontornável na música de Cabo Verde, mas nunca quis deixar a sua ilha, São Vicente. É que “isto de estar no meio do mar traz toda uma nostalgia” e acarreta inspiração, tanto mais que o Mindelo respira música. Para Bau, essa vitalidade artística é simplesmente porque “o cabo-verdiano tem o dom da música”.  O encontro foi marcado para o Jazzy Bird, clube icónico do jazz e da música ao vivo na cidade do Mindelo, em São Vicente, onde Bau vai tocar regularmente. É noite de mais um concerto e o passeio da rua começa a encher como é habitual por estas bandas, onde a música faz parte do dia-a-dia e ainda mais da noite. Como explicar a vitalidade musical desta ilha? Bau responde: “O cabo-verdiano tem esse dom da música. São Vicente, principalmente, teve sempre um desenvolvimento musical diferente por causa do Porto Grande. Vinham aqui muitos músicos, havia muitas influências. No cinema ouvia-se muito música americana, swing e aquelas coisas. Então, o pessoal ganhou toda aquela desenvoltura em torno da música que é diferente das outras ilhas. Já não digo agora porque agora a coisa globalizou, o mundo ligou com a internet, mas antigamente não. Não se podia ter um livro com acordes. Era difícil, era só de ouvido.” E foi de ouvido, com o pai, que Bau aprendeu a tocar guitarra, cavaquinho e violino, os instrumentos que vão regressar, em breve, a estúdio. Rufino Almeida anda a preparar várias surpresas, nomeadamente trabalhos em nome próprio e participações em discos de outros artistas. Por enquanto, prefere não adiantar muito, dizendo simplesmente que vai entrar em estúdio “ainda este ano” no que toca aos novos projectos pessoais. Bau nunca deixou São Vicente, que descreve como a sua ilha, onde nasceu e cresceu rodeado de “todo o ambiente musical”. “Sinto-me feliz em viver aqui. Saio sempre para o estrangeiro para fazer os meus trabalhos, espectáculos, gravações, etc. Agora, com alguns estúdios aqui, aproveito e gravo aqui, salvo algumas coisinhas a nível de masterização e mistura que vou fazer fora”, conta. O Jazzy Bird está decorado com fotografias de vários músicos cabo-verdianos, incluindo uma de Cesária Évora, mesmo atrás do balcão. Bau dirigiu a orquestra da “diva dos pés descalços” vários anos e o que ficou foi muito mais que “Sodade”. “Todo aquele percurso que fiz com ela marcou-me muito por vários motivos. Foi uma grande cantora da música de Cabo Verde, principalmente morna e coladeira. Foi uma pessoa com um 'feeling' e um sentimento a cantar que é uma coisa extraordinária. Eu gostava muito. Eu gosto do que ela fez. Deixou um grande legado a nível musical. Foi uma experiência interessante. Andei em vários palcos do mundo durante quatro anos como chefe de orquestra, arranjador. Conheci vários músicos, várias pessoas…”, recorda. “Paris era a nossa segunda casa”, acrescenta, admitindo que gostaria de voltar aos palcos da capital francesa para apresentar os seus projectos. Depois das digressões com Cesária Évora, surgiu o convite para que a música “Raquel”, do seu primeiro disco a solo, entrasse no filme “Fala com Ela” de Pedro Almodóvar. “Raquel é uma mazurca bastante lenta. Ele ouviu a música, não sei onde. Ele ouviu, estava a fazer o filme e interessou-se pela música. Contactou o produtor que falou comigo e eu ‘Ok, por mim não há problema’ (…) Teve um grande impacto. Houve vários compositores, Caetano Veloso e outros, que participaram na banda sonora. Foi muito bom, foi um grande reconhecimento realmente”, conta. Em Cabo Verde, canta-se a saudade, o amor à terra-mãe, o amor simplesmente, a coragem, a abertura ao mundo. E o que contam as melodias de Bau? “Nós temos um ‘feeling’ da ilha. Isto de estar no meio do mar traz toda uma nostalgia, com as pessoas que saem para emigrar, etc. A morna toca-nos muito. É como o fado, como o blues, é uma música que traz muita emoção. Para nós, a morna é que identifica o sentimento cabo-verdiano”, resume, poeticamente, o músico. Veja aqui um pouco de um dos seus concertos, a solo, na véspera da entrevista com a RFI.
    4/11/2022
    13:44

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