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  • Saiba como o estresse pode desencadear doenças de pele autoimunes
    Aquecimento global, crise econômica, guerras, mas também o luto ou grandes decepções amorosas: em termos conjunturais ou pessoais, o estresse faz parte das nossas vidas e pode gerar reações orgânicas variadas, inclusive na pele. Em entrevista à RFI, a dermalogista brasileira Carla Bortoloto, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia Clínica e Cirúrgica (SBDCC) explicou qual é o papel do estresse no desenvolvimento das doenças autoimunes cutâneas. Taíssa Stivanin, da RFI  A pele é o maior órgão do corpo e sofre alterações variadas, que podem ser provocadas pelo estresse, diz a especialista. "A perda de um ente querido ou separação de um casal, por exemplo, podem ser um "gatilho" e desencadear algumas doenças autoimunes", explica Carla Bortoloto. O termo autoimune significa que o sistema imunológico reage de maneira desordenada e ataca uma parte do corpo que funciona normalmente. Depois de instalada, essa condição se torna crônica e é dificilmente reversível sem tratamento ou medicação. O estresse desencadeia um processo inflamatório, com liberação de citocinas específicas responsáveis pelo aparecimento dessas doenças. As principais são, além da psoríase (descamação da pele), o vitiligo (perda de pigmentação) e a alopecia areata (perda de cabelo), que atinge muitas crianças, explica a dermatologista. O tratamento associa diferentes medicamentos e o objetivo é aliviar os sintomas da fase aguda e mellhorar a qualidade de vida.  De acordo com a especialista brasileira, pacientes que desenvolvem essas doenças têm predisposição genética - os genes envolvidos no processo, entretanto, não serão necessariamente "ativados" ao longo da vida. Mas, acontecimentos graves criam um terreno propício para que isso aconteça e para que patologias inflamatórias se manifestem. Medicamentos e doenças infecciosas também podem gerar distúrbios dermatológicos. Gatilho é resultado de estresse pontual Doenças autoimunes de pele indicam que o paciente tem tendência ao desenvolvimento de patologias similares, que podem afetar outros órgãos, lembra a médica. “Quando temos uma doença autoimune, a predisposição para desenvolver outra com essa característica é de 46%.Quem tem vitiligo tem uma chance maior de desenvolver diabetes do tipo 1, ou uma tireoidite, por exemplo”, explica Carla Bortoloto. Por isso, é essencial investigar a existência de outras patologias associadas, o que é bastante comum, diz a médica. As doenças de pele podem revelar outros problemas de saúde graves. Estudos mostram que o estresse vivido no cotidiano não é responsável pelo aparecimento de doenças autoimunes cutâneas, lembra a médica. Essa associação foi demonstrada apenas em caso de eventos traumáticos específicos. "O estresse mais pontual e categórico, que a gente consegue relacionar, através da história clínica do paciente, está ligado ao luto ou à separação dos pais, como no caso de crianças, por exemplo”, reitera Carla Bortoloto. Além disso, não existem evidências científicas mostrando que a alimentação e o sono possam influenciar diretamente no aparecimento dessas patologias. Envelhecimento A tensão do dia a dia, entretanto, pode afetar a pele de outras maneiras. Além de piorar outras doenças pré-existentes, como o eczema atópico, por exemplo, ela acelera o envelhecimento da pele e provoca o mesmo efeito da radiação solar, do alcoolismo e do tabagismo na célula do colágeno. “O colágeno é uma proteína, de grande peso molecular, localizado na derme. Quando ele se liga a uma outra proteína da mesma espécie, ou seja, quando dois colágenos se juntam, formam uma ligação que é irreversível, chamada glicação”, explica Carla Bortoloto. Na glicação, uma molécula de glicose se une à da proteína e a desestabiliza, fazendo com que ela “quebre” por conta da perda de elasticidade e de tonicidade, o que provoca o envelhecimento. “Para ocorrer a glicação, há a liberação de mediadores inflamatórios específicos para cada tipo de alteração”, detalha Carla Bortoloto. A boa notícia é que, em todos os casos, sejam estéticos ou clínicos, os tratamentos estão cada vez mais eficazes.
    11/29/2022
    6:05
  • Transtorno de personalidade borderline ainda é mal diagnosticado, diz psiquiatra francesa
    O transtorno de personalidade borderline é uma doença mental que compromete a vida do paciente e das pessoas com quem ele convive, mas ainda é uma patologia desconhecida do grande público. A doença provoca ansiedade, irritabilidade e comportamentos impulsivos. O paciente, que teme o abandono, vive com as emoções literalmente à flor da pele e se sente incapaz de gerenciá-las. A prevalência do distúrbio na população é estimada entre 4% e 6%. O tratamento principal é a psicoterapia e pode associar medicamentos, dependendo do caso. Como ajudar alguém que é afetado pelo problema? A psiquiatra francesa Deborah Ducasse, que atua no Hospital Universitario de Montpellier, é uma das co-autoras do livro “Le Trouble borderline expliqué aux proches”, ou “O Transtorno Borderline explicado à família e aos amigos”, em tradução livre. “É um problema muito frequente, mas ainda pouco conhecido. Há poucos profissionais de saúde formados para diagnosticar a doença. Pode ser dificil para a equipe tratá-la e acompanhar o doente de maneira eficaz. Exige uma formação específica”, disse à RFI. De acordo com a psiquiatra, o transtorno tem diferentes níveis de gravidade, como na maior parte das doenças mentais. Há, entretanto, um ponto comum entre os doentes: o apego excessivo a uma relação, explica a psiquiatra. “O borderline é um transtorno emocional, enquanto o bipolar ou a depressão são distúrbios do humor”, diz. "Movimento afetivo" As emoções podem ser definidas como um “movimento afetivo”: um conjunto de sensações normais que se manifestam no organismo e que têm duração limitada. Entre elas estão a alegria, o medo, a tristeza ou a raiva, por exemplo. No transtorno borderline, a intensidade das emoções é extrema e oscila ao longo do dia. Os sintomas são variáveis e se baseiam na incapacidade de sentir autossatisfação, o que provoca um vazio interior, explica a especialista. “É para enfrentar esse vazio que a pessoa vai imaginar um relacionamento próximo como a solução para esse mal-estar interno. O paciente idealiza a capacidade do outro para preencher esse vazio, criando muitas expectativas. Como em geral o outro não estará à altura dessas expectativas, haverá muitas decepções e alternância entre a idealização e desvalorização. ” É comum, por exemplo, que o paciente invista de maneira excessiva em uma relação amorosa, ou amizade, e se torne dependente emocionalmente desse relacionamento. Isso pode gerar comportamentos autodestrutivos, como tentativas suicidas ou até automutilação. A psiquiatra francesa ainda explica que, quem sofre da doença, pode passar a ter uma opinião completamente diferente de alguém que, no passado, foi o objeto de sua devoção. Isso pode provocar acessos de raiva e explosões seguidas de uma grande sensação de culpa. Doença pode passar despercebida No ambiente de trabalho, a doença pode não ser notada pelos colegas. “No transtorno borderline, há um apego ao sucesso profissional, que deriva da necessidade de valorização pessoal. O paciente pode ser muito competente, ter um excelente desempenho, e interagir bem com os colegas com quem não tem relações tão próximas”, descreve Deborah Ducasse. Estudos mostram que estresses vividos na infância podem contribuir para o desenvolvimento da doença. A predisposição genética é uma outra pista, assim como uma desregulação dos neuropeptídeos, substâncias químicas liberadas pelas células cerebrais. A RFI entrevistou uma paciente de 22 anos que foi diagnosticada em setembro de 2020 e preferiu não se identificar. Inicialmente, ela teve anorexia e os médicos que a trataram não detectaram imediatamente o transtorno borderline, apesar de terem observado a existência de um outro problema psiquiátrico associado. “Nossa vida depende da imagem que temos de nós mesmos no mundo. Então, todos os eventos que afetam essa imagem externa vão nos desestabilizar. ” Comportamentos compulsivos, descreve a paciente, também são comuns: comprar ou comer demais ou usar drogas são alguns dos exemplos. Hoje a jovem francesa deu a volta por cima e fala sem complexo sobre sua doença. “Tornou-se uma parte da minha história, e tenho orgulho dela. É essa história que faz que eu tenha tanta força hoje."
    11/22/2022
    5:21
  • Covid-19: controle definitivo da pandemia depende de adesão à vacina, diz virologista francês
    O aparecimento da subvariante BQ.1.1 da ômicron BA.5, que atualmente é responsável por boa parte das novas contaminações na França, não preocupa as autoridades sanitárias do país, que enfrenta sua oitava onda epidêmica. O número de casos cresceu cerca de 18% na última semana, de acordo com dados divulgados pela Santé Publique France, a agência de vigilância sanitária francesa, mas há menos hospitalizações, mortes e internações nas UTIs (Unidades de Terapia Intensiva). Taíssa Stivanin, da RFI O controle da epidemia agora dependerá principalmente da adesão da população à vacinação periódica, diz Bruno Lina, professor de Virologia do Hospital Universitário de Lyon e membro do COVARS, o Comitê de Acompanhamento e Antecipação de Riscos Sanitários do Ministério da Saúde Francês. O órgão publicou suas últimas recomendações no último dia 20 de outubro. "Temos a impressão que esse vírus, BQ.1.1, não é responsável por uma retomada epidêmica. Ele parece ser um vírus de transição", disse o virologista francês à RFI Brasil. "Estamos otimistas em relação à epidemia, mas a próxima fase está condicionada ao uso de todas as ferramentas que existem para lutar contra o coronavírus. Se interrompermos a vacinação, se não aderirmos à imunização e às medidas de proteção nos períodos em que o vírus está circulando, estamos expostos à retomada epidêmica. Isso é claro", acrescentou. A Covid-19, a exemplo da gripe, provavelmente será responsavel por uma onda epidêmica anual, prevê o virologista francês. Mas, para atingir esse patamar, que representa o tão esperado retorno de fato à vida normal, é necessário manter a imunidade da população. Para isso, o ideal é fazer a dose de reforço em média de quatro a seis meses após a última injeção e três após a infecção  – que protegem por tempo limitado, com algumas variações individuais. Esta é a recomendação da FDA (agência reguladora de medicamentos e alimentos) dos Estados Unidos. A França optou por concentrar seus esforços em campanhas para incitar a dose de reforço em pacientes idosos ou com fatores de risco. A imunização desse grupo é essencial para evitar internações, formas graves e mortes, e aliviar a pressão nos hospitais, mas isso não significa que a população com menos de 60 anos esteja dispensada da vacina, lembra Bruno Lina. O país já dispõe da vacina bivalente da Pfizer, que traz as cepas BA.4 e BA.5 e é segura, afirma. O especialista lembra, entretanto, que os imunizantes feitos com a cepa histórica continuam sendo eficazes e não há razões para adiar a injeção nos países onde a nova vacina do laboratório americano ainda não está disponível. "Temos que parar de achar que a Covid-19 se tornou uma doença benigna só porque a maioria das pessoas não vai para o hospital. Podemos ficar de cama durante três semanas", alerta. O virologista também lembra o risco da Covid longa, que atinge uma parcela ainda desconhecida dos contaminados que convivem com sintomas persistentes. Monitoramento de variantes     À espera de elementos mais concretos sobre o futuro epidêmico, por hora o governo francês continuará monitorando a nova subvariante BQ.1.1, que deve se tornar majoritária nas próximas semanas. O objetivo é determinar se ela induzirá um número maior de contaminações. Há razões para manter o otimismo, diz Bruno Lina: na onda atual, os hospitais não ficaram lotados, o que mostra que houve menos casos graves. O pico da epidemia deve ser atingido em 15 de novembro, com uma queda significativa da taxa de incidência. No continente europeu, também existe a possibilidade de que haja uma queda brutal da circulação em dezembro, apesar da chegada do inverno no hemisfério norte. A todos esses aspectos, soma-se um outro fator fundamental. Dados mostram que a mutação 346 presente na proteina Spike da BQ.1.1, que o SARS-CoV-2 utiliza para entrar na célula, "opera em um contexto de maior pressão imunitária adquirida pela população." De acordo com Bruno Lina, essa mutação não se compara em termos de virulência, por exemplo, às observadas nas linhagens BA.1 e a BA.2 e a BA.4 e a BA.5. A chegada da ômicron e de suas subvariantes mudou a trajetória da pandemia. Mais contagiosa e menos virulenta, ela contaminou um número maior de pessoas, fazendo com que as populações em diversos países do mundo adquirissem um certo grau de imunidade que, associada à vacinação, evita hospitalizações, casos graves e mortes. À espera (ou não) de novas cepas Esse equilíbrio, entretanto, pode ou não ser duradouro. Segundo Bruno Lina, dois fatores são determinantes para o futuro epidêmico : a emergência de novas variantes que acabem com o reinado da ômicron, e o ritmo das ondas epidêmicas, que ocorrem surgem, em média, a cada quatro meses, mas poderia diminuir. "Essas duas questões estão correlacionadas. Se a evolução do vírus for lenta, é provável que o ritmo das epidemias seja mais espaçado", prevê. "Hoje, entretanto, sou incapaz de dizer se essa incidência vai diminuir ao ponto de fazer com que os casos de Covid desapareçam, ou se entraremos em uma circulação praticamente sazonal, de um virus respiratório normal. Ou que ainda estamos expostos ao risco de retomada epidêmica por um vírus que talvez não apareça na Europa, mas no exterior", questiona. O virologista francês lembra que o Ministério da Saúde monitora com atenção, por exemplo, a variante XBB, surgida na Ásia, que parece ter um maior potencial de escape imunitário.
    11/8/2022
    4:59
  • “A Covid-19 continua sendo uma roleta russa”, diz especialista francês
    O médico do Esporte Nicolas Barizien dirige o setor de Covid Longa do Hospital Foch, em Suresnes, na região parisiense. Em entrevista à RFI, ele explicou que, apesar da pandemia estar em uma nova fase, a prevenção não deve ser deixada de lado. A melhor maneira de evitar complicações continua sendo não contrair o vírus.  Taíssa Stivanin, da RFI Por que a Covid-19 é uma doença banal para muitas pessoas, mas pode gerar casos graves e desencadear a Covid longa em outras?  Desde o início da epidemia, no final de 2019, cientistas do mundo todo tentam responder essa pergunta. Milhares de estudos foram feitos e existem algumas pistas, mas ainda serão necessários anos, talvez décadas, para compreender as peculiaridades da doença. Há indícios de que, em ambos os casos, exista uma predisposição genética, mas essa é uma hipótese que ainda está longe de ser comprovada, explicou o especialista francês. “Suspeitamos que exista, entre aspas, uma fragilidade genética, mas são estudos de pesquisa fundamental, ainda não temos o resultado”, disse Barizien à reportagem da RFI, que acompanhou pacientes que sofrem de Covid longa no hospital. A França está entrando na oitava onda epidêmica, e os casos vêm aumentando desde outubro. O pico deve ser atingido em 15 de novembro. “Como todas as doenças, o melhor é não pegar. Então eu insisto: é preciso tomar a vacina. Quem não se vacinou, deve fazê-lo porque isso é que vai proteger”, lembra. Ele ressalta que a vacina bivalente da Pfizer, que já está sendo aplicada na França, traz ainda mais esperança de controle da epidemia, já que inclui as cepas ômicron que circulam atualmente – mais contagiosas e menos virulentas.  A vacinação salvou vidas e diminuiu o número de hospitalizações e internações nas UTIs. Pacientes que se imunizaram também têm menor risco de desenvolver a Covid longa após contrair o vírus. Ainda há controvérsias, entretanto, sobre o efeito do reforço na Síndrome pós-Covid, como mostraram diversos estudos, explica o especialista.   “Há pacientes com a Covid longa que melhoram com o reforço da vacinação, mas em outros, a vacina não faz diferença. Há também aqueles que têm um agravamento dos sintomas e não há nenhuma maneira de saber, por antecipação, quem vai melhorar ou piorar com a vacina”, lamenta. Tomar vacina antes de pegar o vírus evita a Covid longa O especialista recomenda, para pacientes com Covid longa diagnosticada por uma equipe multidisciplinar, um exame laboratorial para medir a quantidade de anticorpos e determinar a necessidade imediata ou não do reforço. Ele lembra, entretanto, que, após o início da vacinação, há cada vez menos pacientes com Covid longa, já que pegar o vírus depois da injeção evita ter a doença. Por isso, ele alerta para a importância do diagnóstico precoce. “Quem teve Covid e sempre está cansado, com falta de ar e sente taquicardia um mês depois da infecção, vale a pena consultar um médico, para estabelecer um diagnóstico, fazer exames complementares e se tratar rapidamente”, diz. O efeito das múltiplas infecções no organismo ainda deve ser melhor estudado. O que pode acontecer no corpo de alguém que pega a Covid-19 várias vezes? E se o paciente já tinha a Covid longa e contrair o vírus novamente?  “É uma roleta russa. Tem gente que vai pegar o Covid pela segunda vez e ter dois ou três dias de febre e voltar ao mesmo estado de antes, sem piorar. Mas em alguns pacientes, essa nova contaminação vai desencadear um novo ciclo com sintomas piores, durante vários meses. Tudo depende”, resume.
    11/2/2022
    3:59
  • "Nada será como antes": hospital francês ajuda pacientes com Covid longa a retomar vida normal
    A RFI acompanhou pacientes com Covid longa atendidos no Hospital Foch, na região parisiense, que mais de um ano após terem contraído o vírus, lutam para conviver com os sintomas persistentes gerados pela Covid-19. Taíssa Stivanin, da RFI São 8h da manhã e três pacientes aguardam na sala de espera do setor de Medicina Esportiva do Hospital Foch, em Suresnes, na região parisiense. Audrey é uma delas. Desde 2021, ela convive com a Covid longa. Após sua infecção, seus sintomas se intensificaram e ela acabou paralisada, em uma cadeira de rodas. “Não conseguia andar, de tanto cansaço”, conta a francesa de 40 anos, contaminada pela variante Alfa, em 2021. Audrey iniciou seu tratamento em maio. Hoje, seis meses depois, ela recuperou o fôlego e seu estado de saúde melhorou, após meses de reeducação com uma equipe multidisciplinar, que inclui psicóloga, nutricionista, fisioterapeuta, neurologistas e fonoaudiólogas. Vítima de uma forma severa de Covid longa, Audrey agora quer virar a página, deixar tudo para trás e pede à reportagem para não aparecer na foto. Foi em 2020 que surgiram os primeiros casos de pacientes que, meses após contrair o vírus sem complicações, ainda sentiam falta de ar, cansaço extremo e tinham problemas cognitivos que os impediam de realizar tarefas banais do cotidiano. A professora primária Nadège Courilleau, de 51 anos, acredita ter pego o vírus, há cerca de um ano, na escola onde lecionava, perto de Paris. Desde então, ela convive com os sintomas da doença. Durante a entrevista, Nadège perdeu o fôlego e precisou interromper a conversa algumas vezes - ela tinha, visivelmente, dificuldade para completar seu raciocínio. A professora francesa teve um declínio cognitivo confirmado pelos médicos após a infecção pela Covid-19 que, no seu caso, foi moderada, mas sem hospitalização. A memória imediata de Nadège não é a mesma de antes e esse problema a impede de trabalhar. “Não consigo gerenciar imprevistos. Tenho problemas de planejamento e de organização. Coisas que eu fazia e ensinava antes não sou mais capaz de fazer. Não consigo mais fazer cálculos de cabeça e tenho problemas de compreensão, de leitura e de fala”, conta. “Para mim, a grande surpresa, é que nunca melhorei. O tempo passa e os sintomas continuam os mesmos”, lamenta. Nadège contou à RFI que sente cansaço extremo, tem vertigens e taquicardia. “Antes, eu era uma atleta, corria duas vezes por semana e praticava natação.  Agora, não faço mais nada. Só caminho um pouco, não consigo fazer outra coisa”, diz. O programa pós-Covid é, para ela, a esperança de poder retomar uma vida normal e cuidar de seu filho mais velho, que é cadeirante. “Não posso mais dirigir e levá-lo às consultas.” A Covid longa também afetou sua vida social: algumas pessoas, diz, parecem duvidar da existência de sua doença. “Às vezes insinuam que não me esforço o suficiente.” Com o tempo, ela percebeu que a Covid longa provoca recaídas - uma característica comum a muitas patologias crônicas. “Melhora um pouco e depois os sintomas voltam, como no começo", descreve. A OMS (Organização Mundial da Saúde) reconhece a existência da Covid longa ou Síndrome da Covid longa, desde 2021.  A estimativa é que entre 10 e 20% dos contaminados terão sintomas persistentes, que duram mais de quatro semanas. O programa para pacientes com Covid longa do Hospital Foch é dirigido pelo médico francês Nicolas Barizien, especialista em Medicina Esportiva, que escreveu um livro sobre o tema. Ele é uma referência para os pacientes que sofrem da doença e buscam tratamento. O setor foi um dos primeiros criados na França, em 2020, poucos meses após o aparecimento do vírus SARS-CoV-2 no país. A doença pode se manifestar de forma benigna, moderada ou severa. “A Covid longa atinge principalmente pessoas que tiveram uma forma leve ou moderada, tratada em casa e sem hospitalização. São pacientes jovens, entre 20 e 60 anos, na sua maioria mulheres. São pessoas ativas, com família e filhos pequenos”, explica. “Alguns sofrem tanto com a doença que não conseguem continuar a trabalhar, mesmo que seja meio período, por exemplo. É um grande impacto na vida de certos pacientes”, relata. Desde que os primeiros casos de Covid longa foram detectados, a estimativa é de que cerca de 2000 estudos científicos sobre o tema já tenham sido publicados, que buscam detectar fatores de propensão à doença. Hoje, existem três pistas que podem explicar o aparecimento da Covid longa, explica o médico francês. “A primeira é: será que o vírus fica no organismo e por isso continua gerando sintomas? A segunda é: será que o vírus provoca uma reação inflamatória? Terceiro: será que desencadeou um processo autoimune, levando o corpo a fabricar anticorpos contra si mesmo?", diz.   “Essas são algumas das pistas da pesquisa fundamental para explicar por que os pacientes continuam tendo os mesmos sintomas tanto tempo após a infecção. Praticamente todo mundo já pegou a Covid hoje, pelo menos uma vez. Podemos ficar mal de 2 a 15 dias, mas na maioria das vezes, passa. Há pessoas que vão continuar tendo sintomas durante anos. Tenho pacientes que já estão entrando no terceiro ano de Covid longa”, observa. Um novo estudo publicado em agosto deste ano levanta novas hipóteses sobre a predisposição à Covid longa .A pesquisa feita por cientistas da universidade de Yale e da Icahn School of Medicine, de Nova York, analisou o sangue de 215 pessoas. A conclusão é que o vírus parece afetar e diminuir a secreção do cortisol, o hormônio de adaptação ao stres em alguns indivíduos. O SARS-CoV-2 geraria uma resposta autoimune e inflamatória, com produção de anticorpos e proteínas imunológicas anormais. “Temos a confirmação de que é uma doença com repercussões biológicas. O sintoma que sempre está presente é um cansaço anormal. É normal se sentir cansado depois de ir a uma festa ou correr uma maratona. Não estou falando desse cansaço. Todos dizem, literalmente: minha bateria acabou”, declara. Há também suspeitas de que exista uma predisposição genética à Covid longa, mas ainda não há provas científicas. Além disso, é impossível saber se os sintomas podem piorar caso o paciente seja contaminado novamente. Segundo o médico francês, o reforço da vacinação também age de maneira heterogênea e pode ou não melhorar a condição do paciente. Em contrapartida, pegar o vírus depois de tomar a vacina diminui o risco de ter uma Covid longa. Isso explica, segundo o especialista, por que os casos mais severos, em geral, surgiram no início da epidemia.     De acordo com ele, há três categorias de sintomas. Entre eles, os respiratórios, que provocam falta de fôlego, por exemplo. Em seguida, há sequelas cardíacas, que causam taquicardia em repouso, queda da pressão e vertigens, além de outros problemas. Por fim, muitos pacientes se queixam de deficiências neurocognitivas, que causam dificuldades de concentração, atenção ou memória. Sintomas digestivos e cutâneos também são possíveis, mas menos frequentes. Atualmente, não existem medicamentos para tratar a Covid longa e o objetivo do tratamento é limitar o impacto dos efeitos colaterais no dia a dia. O programa criado pelo médico francês inclui, por exemplo, exercícios cognitivos, respiratórios e recondicionamento físico. Ele lembra que, por isso, também é importante diagnosticar cedo a doença para dar início rapidamente ao tratamento e interromper sua progressão.   Casos graves também podem desencadear Covid longa A Covid longa também pode atingir pacientes que tiveram uma forma grave. É o caso do aposentado Philippe Baudelot, 70 anos, que também é atendido no Hospital Foch. Depois de passar um mês na UTI, ele trata as múltiplas sequelas que surgiram após a infecção e a sua internação. Mas, apesar de ter tido uma Covid grave, contraída em 2021, ele consegue levar uma vida relativamente normal, embora tome muitos medicamentos, contou à RFI durante a consulta com o especialista francês. “Desde que tive a Covid-19, tento tomar o menor número de remédios possível. Para mim, ter que tomar todo dia alguma coisa, é bem difícil. Remédio para o estômago, para isso, para aquilo, para suportar tudo”, diz referindo-se às moléculas que o ajudam a dormir e a driblar a ansiedade. Apesar disso, Philippe mantém o bom humor e é com entusiasmo que ele se levanta para realizar o teste de esforço na sala ao lado. “Vamos pedalar agora? ”, sugere o especialista francês, Nicolas Barizien. “Vamos, vamos fazer a volta da França! ”
    10/25/2022
    6:45

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