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  • Número de eleitores brasileiros na África aumenta, mas Brasil se afastou do continente promissor
    Neste ano, 3.332 brasileiros poderão participar da eleição presidencial estando em 17 países africanos. O número de cadastrados no continente é quase 22% maior que o de 2018. Na eleição passada, 2.734 eleitores se registraram, só que no segundo turno mais da metade (54,2%) nem sequer apareceu nos locais de votação africanos. O percentual de abstenção ficou acima de 50% em 11 desses países. Vinícius Assis, correspondente da RFI na África do Sul Em 2018, Jair Bolsonaro recebeu no segundo turno 57,5% dos votos de brasileiros residentes na África. Os dados são do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF), responsável por zonas eleitorais no exterior, e de embaixadas e consulados do Brasil em países africanos. A maior parte do eleitorado brasileiro no continente está na África do Sul, uma das maiores economias da região. Adalton e Fernanda Barbosa são originários de Salvador (BA) e se mudaram para a Cidade do Cabo em 2019. Além de trabalharem como modelos, os dois abriram um negócio próprio e vendem comida brasileira. Neste ano votarão pela primeira vez no exterior. “É muito importante”, frisou Fernanda. Ela acredita que este seja o meio de alguém dar o melhor para a própria nação estando longe dela. O casal acabou justificando o voto em 2018 por estar viajando, mas não quis perder a chance de votar desta vez. “Não estou feliz com este atual governo e estou com uma expectativa grande de mudança", disse Adalton. "Meu voto é muito importante para contribuir para isso”, destacou. O casal está entre os 1.016 brasileiros que neste ano podem votar na África do Sul, número aproximadamente 19% superior ao pleito de quatro anos atrás. Na última eleição presidencial, 855 brasileiros se cadastraram para votar no país (605 em Pretória e 250 na Cidade do Cabo). No próximo dia 2 de outubro, haverá urnas eletrônicas em cada uma dessas duas cidades. A maioria dos brasileiros residentes na África do Sul vive em Pretória, Joanesburgo e Cidade do Cabo. Os perfis são diversos. Há estudantes, empresários, servidores públicos, pesquisadores, militares, missionários e acompanhantes de expatriados. No país africano que tem Cuba e China como dois dos principais aliados, alguns brasileiros se mostram mais próximos do socialismo, enquanto outros demonizam o comunismo. A empresária Ana Karato nasceu em Salesópolis, interior de São Paulo, e mora na África do Sul desde 2008. Ela votou no exterior pela primeira vez na eleição passada. Casada, mãe de três filhas, Karato conta que apenas a mais nova da casa, de 3 anos, não irá votar neste ano. A eleitora paulista estima que o presidente Jair Bolsonaro correspondeu em seu governo ao favoritismo que teve no continente na última eleição. Quando a reportagem pediu um exemplo de ação, inicialmente ela se referiu “a aviões fretados para que brasileiros fossem repatriados” durante a pandemia. Na verdade, em 2020, a embaixada brasileira no país contratou apenas um avião da South Africa Airways – e não vários – por cerca de R$ 2 milhões, para repatriar em torno de 250 brasileiros. Os passageiros foram dispensados de pagar diretamente os bilhetes. A empresária brasileira disse ainda que não tem motivos para reclamar sobre a atual relação bilateral entre Brasil e África do Sul. “Quem estiver no governo, independente de quem for, precisa colocar os interesses do país em primeiro lugar. Eu teria que fazer uma análise para ver o que que seria interessante para o Brasil“, afirmou. Ela diz achar “interessante que o Brasil não está mandando dinheiro para outro país”. “O importante é o Brasil se desenvolver. Então, para você se desenvolver, é como no meio dos negócios: você vende alguma coisa, a pessoa precisa comprar. Tem que haver uma troca, não pode ser somente de um lado”, disse. Governos brasileiro e sul-africano mais distantes Os 12 voos semanais que ligavam São Paulo e Joanesburgo até antes da pandemia já não existem mais, o que para Kika Ermel, operadora de turismo que vive na África do Sul há 15 anos, é um dos exemplos do crescente distanciamento entre os dois países. Aliás, ela disse que a relação Brasil-África do Sul parece estar indo ladeira abaixo. “Politicamente falando, vejo uma falta de conexão entre os dois países”, lamenta Ermel. “Cadê o BRICS?”, pergunta ela, indignada, referindo-se ao bloco do qual Brasil e África do Sul fazem parte, junto com Rússia, China e Índia. Especificamente sobre a falta dos voos diretos, ela lembra que o assunto não é apenas uma questão comercial. “Há que ter a vontade política”, frisou. Kika conta que antigamente se programava para viajar para o Brasil e votar, mas há anos desistiu de fazer isso e prefere justificar sua ausência das urnas. Com perfil assumidamente conservador, ela declara que se identifica mais com Bolsonaro do que com Lula, os dois favoritos nesta eleição brasileira, mas evita partidarizar suas respostas em se tratando de expectativas para o próximo governo. Ela acredita que a pressão de Bolsonaro para tentar nomear o bispo licenciado da igreja Universal Marcelo Crivella como embaixador do Brasil em Pretória talvez possa ter criado um certo mal-estar na relação entre os dois países. O que também tem deixado a empresária do ramo de turismo indignada é o fato da embaixada brasileira na capital sul-africana estar há meses sem um embaixador. Falta de embaixadores e queda de exportações no governo Bolsonaro Atualmente, outras embaixadas africanas estão com o posto de embaixador brasileiro vago, como, por exemplo, Moçambique. Depois do constrangimento diplomático com Crivella, o governo da África do Sul aceitou a indicação do diplomata Benedicto Fonseca Filho, o primeiro embaixador negro do Brasil, que atualmente é cônsul-geral em Boston, nos Estados Unidos. Mas ele ainda precisa passar pela sabatina do Senado. “Certamente isso só acontecerá depois das eleições”, disse à reportagem uma fonte do Itamaraty. Na avaliação de Mario Schettino Valente, professor de Relações Internacionais do Ibmec da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a ausência de um embaixador em um país indica falta de prioridade. Em sua premiada tese de doutorado, defendida em 2020, Valente estudou os efeitos da política externa brasileira sobre o comércio exterior. “A tese comprova, de forma estatística, que a abertura de embaixada aumenta o fluxo comercial, principalmente as exportações”, afirmou. Atualmente, o que o Brasil mais envia para a África do Sul são óleos combustíveis de petróleo e carnes. E o que mais compra dos sul-africanos são minerais: prata, platina e alumínio representam mais da metade das importações brasileiras na pauta bilateral. Ainda de acordo com Valente, em 2019, o Brasil registrou o menor valor de participação nas exportações para a África do Sul em 20 anos. No primeiro ano do governo Bolsonaro, este percentual foi de 0,50%, maior apenas que o registrado em 1999 (0,49%). A constatação de recuo comercial é a mesma ao se analisar dados da África Subsariana. “Os piores anos da participação da África Subsaariana nas exportações brasileiras, desde 2000, foram em 2019 (1,628%) e 2018 (1,654%)”, informou. Ele acredita que a redução das atividades da Petrobras no continente tenha afetado este fluxo. Política externa minimizada na campanha A política externa não parece ser uma prioridade para os candidatos à presidência em 2022, muito menos em se tratando da África. Dos 11 candidatos que disputam a corrida presidencial, três citaram o continente africano em seus planos de governo: Léo Péricles (UP), Lula (PT) e Sofia Manzano (PCB). Pablo Marçal até fez referência à região no seu programa de governo, mas o PROS retirou a candidatura dele. Enquanto países como Turquia, Estados Unidos, Rússia e China seguem buscando cada vez mais espaço no continente africano, o presidente do Instituto Brasil-África (IBRAF), João Bosco Monte, lembra que o Brasil vem se afastando desta região desde 2015, e esse distanciamento se intensificou no atual governo. Brasília não deu à África a atenção correspondente ao resultado das urnas no continente em 2018. Para o presidente do IBRAF, a imagem do Brasil no exterior não é a mesma de anos atrás e isso se dá, muito, pela forma com que o presidente Bolsonaro conduz sua política externa. Na África não é diferente. “O Brasil não está bem representado. O presidente Bolsonaro, durante os seus quase quatro anos de governo, sequer pensou e, de forma objetiva, materializou a relação próxima que o Brasil tinha com a África. Ele nunca viajou para nenhum dos países africanos. Isso é muito ruim, porque não demonstra uma aproximação e interesse do Brasil em conversar com a África”, analisou. Engana-se quem associa a África a um lugar que apenas precisa de ajuda humanitária. Especialistas consideram este “o continente do futuro”. Não se fala em produção de carros elétricos, por exemplo, sem colocar na discussão a República Democrática do Congo, um dos maiores produtores mundiais de coltan, ingrediente fundamental para a produção de baterias, inclusive de telefones celulares. Brasileiros esperam reaproximação entre Brasil e África No segundo turno, em 2018, o petista Fernando Haddad venceu a votação em seis países africanos: Cabo Verde, Costa do Marfim, Marrocos, Nigéria, Tanzânia e Quênia, para onde o missionário católico Pedro Mariano Pinheiro se mudou há sete meses. Ele também é de Salvador (BA) e vive a cerca de 170 km da capital queniana, Nairóbi. Pinheiro já está se programando para ir até a capital, a fim de votar no dia 2 de outubro. “Acho que cada voto é importante para fazer a diferença e tirar esse governo que está acabando com nosso país. Mesmo aqui eu preciso exercer meu dever de eleitor”, afirma. O missionário disse ainda que espera mais diálogo entre o Brasil e o continente africano no próximo governo. O desejo dele é o mesmo da professora universitária Ivanise Gomes. Há 8 anos, ela vive em Moçambique, que terá neste ano o segundo maior eleitorado brasileiro no continente africano: 673 inscritos, apenas dois eleitores a menos do que em 2018. A brasileira, que antes optou por justificar sua ausência, decidiu não deixar de votar desta vez. “Eu acho que o Brasil está passando por uma situação muitíssimo delicada, política e socialmente. Para mim, é como um grito de socorro. Espero que meu voto faça diferença para que essa situação se reverta, que as coisas melhorem para o Brasil. Acreditar nessa melhora também vai reverberar nos países africanos, porque existia um diálogo entre Brasil, Moçambique, África do Sul, os países do sul global, e que foi esvaziado, cessado nesse último governo. Eu acredito que isso possa voltar a acontecer”, declarou a professora. Ela ainda criticou a atual falta de incentivos a pesquisadores brasileiros e moçambicanos, como existia quando ela chegou à região. “Que essa relação (entre os dois países) volte a ser como era antes, com bastante intercâmbio de saberes, professores, estudantes, além de outras áreas onde há cooperação entre Brasil e Moçambique”, completou. Voto com cédula de papel Durante a produção desta reportagem, vários brasileiros que vivem em países africanos e demonstram apoio ao atual governo em redes sociais foram contatados, mas muitos deles disseram que não fizeram o cadastramento eleitoral a tempo. Por isso, não poderão votar no exterior. Em nove países africanos, o voto será com cédulas de papel, uma vez que o número de eleitores brasileiros cadastrados não passou de 100. Após o fim da votação e a contagem local dos votos, todos os resultados serão imediatamente enviados a Brasília.
    9/24/2022
    11:04
  • Modelos baianos falam da representatividade negra no mercado da África do Sul
    Não foi da noite para o dia que esses dois conseguiram estrelar campanhas de marcas de luxo. Unidos pelo trabalho, os modelos Fernanda e Adalton Barbosa se conheceram gravando um comercial e estão juntos há 12 anos. Os dois são de Salvador, Bahia, e começaram a carreira cerca de 15 anos atrás. Ela ainda era adolescente, tinha 16, como muitas nessa profissão. Vinícius Assis, correspondente da RFI na África do Sul Já ele começou a carreira com pouco mais de 20 anos de idade. O foco deles não são as passarelas, mas, sim, o mercado publicitário. Em 2013 ambos se mudaram para São Paulo, a mais cobiçada cidade brasileira para quem é desta área. Três anos depois, veio a ideia de dar um passo a mais na carreira: o mercado internacional. Foi, então, que fizeram contato com agências da África do Sul. Fernanda, que, por conta de uma campanha de shampoo na Argentina, já tinha feito a primeira viagem dela para fora do Brasil, acabou sendo convidada para uma temporada de três meses no país de Nelson Mandela, especificamente na Cidade do Cabo (ou Cape Town, em inglês). “Foi um desafio muito grande mesmo, eu lembro que eu não queria vir de jeito nenhum, viu. Eu fiquei com muito medo. O inglês foi o que mais me deixou apavorada. Vai ser muito difícil, eu estava com isso na mente, mas ainda bem que eu aceitei o desafio de vir. Passei os meus perrengues, que todo mundo que não fala inglês vai passar, mas valeu muito a pena mesmo”, lembra. Não saber se comunicar em inglês - um dos 12 idiomas oficiais da África do Sul - potencializou o nervosismo, mas não a impediu de encarar este desafio. Ela veio, mesmo sem dominar o inglês, para um país onde praticamente todo mundo fala mais de um idioma. “Absolutamente todo mundo que eu conheci aqui não só falava inglês, mas falava, tipo assim, quatro idiomas facilmente. Até o mendigo da rua”, destaca. Ela conta que isso a fez se sentir mal, por ser de uma potência gigantesca como o Brasil, onde se fala apenas português e não há muito incentivo para que se fale fluentemente outro idioma. Quando o contrato terminou, ela voltou para São Paulo. Aquele medo do início deu lugar ao sentimento de saudade. “Me bateu uma tristeza. Fiquei mal, doente e Adalto sem entender nada”, contou. Ainda em 2018, houve mais um convite, desta vez para passar seis meses na África do Sul. No fim daquele ano, Adalton acabou vindo também, mas a passeio. Era a primeira viagem internacional dele. Até que em 2019 os dois assinaram contrato de três anos com uma agência de modelos e se mudaram para a paradisíaca cidade que precisavam desbravar. “Foi paixão a primeira vista aqui nesse lugar maravilhoso”, disse Adalton, que entende do que Fernanda estava falando quando voltou para o Brasil. Mas a falta da fluência em inglês também foi um desafio para ele no início. Mas os dois voltaram para o Brasil, em abril de 2019, até que conseguiram, quatro meses depois, o visto de três anos para voltar para a África do Sul. Negros no mercado publicitário sul-africano No país estigmatizado pelo apartheid, regime de segregação racial que vigorou de 1948 até o início dos anos 90, e deixou marcas ainda perceptíveis, os negros representam cerca de 80% da população. Os brancos correspondem a quase 8%. Tem ainda os descendentes de indianos e os pardos, que somam os 12% restantes. É como oficialmente a população é dividida no censo sul-africano. O tom de pele de que vem de um país diverso, étnico-racialmente falando, como o Brasil é uma questão importante. “Isso é muito bem dividido e a moda é falada diretamente para cada tipo de grupo, coisa aqui no Brasil não é tão assim. Por exemplo: no Brasil é muito fácil uma menina mestiça, de pele bem clara, ocupar o espaço de uma menina negra. Não estou entrando em mérito aqui de quem é negro de quem não é”, frisa Fernanda, lembrando que apenas está comparando com a realidade do mercado na Cidade do Cabo, onde “quando eles querem uma modelo negra, eles querem uma modelo negra”. Ela lembra que brasileiras de pele mais clara e cabelos cacheados já vieram para a África do Sul e não trabalharam muito bem como achavam que trabalhariam. “Qual o grupo dessa menina aqui? Ela não vai encaixar quando o briefing pedir uma modelo negra. Em contrapartida, ela não vai encaixar tanto quando o briefing pedir uma modelo coloured (como os mestiços são chamados na África do Sul)”, esclareceu. Adalton enfatiza que, de um modo geral, o mercado para modelos negros é difícil.”A gente já sai perdendo para os brancos”, lembra. Mas ele, que usa dreads nos cabelos, diz que na África do Sul consegue trabalhar para marcas que vendem produtos mais elitizados, o que certamente não aconteceria se estivesse no Brasil. Mas mesmo assim eles enfrentam desafios por causa de suas características físicas. E por conta disso, Fernanda trabalha mais do que Adalton. “Eles dizem que o perfil de Fernanda é o perfil europeu. É a negra dos traços finos. Já eu, tive muita dificuldade de trabalhar no Brasil porque eu tenho lábios grandes e tal. Nesse tempo eu me cobrava muito. Sempre eu perdia para um modelo negro da pele mais clara com traços mais finos. Isso me deixava muito triste. Porém, aqui é bem legal para mim, porque eu me passo realmente como um africano”, disse. Adalton constantemente é comparado com os homens nigerianos e conta que o cabelo rastafári o faria ser visto apenas como “um negro descolado” no mercado da moda em São Paulo, deixando claro que a visão do negro endinheirado, dirigindo carros de luxo, praticamente inexiste no Brasil. “Aqui é diferente”, destaca o modelo. Fernanda faz questão de ressaltar a diferença entre modelos, de verdade, e profissionais do sexo que apenas se apresentam como modelos, mas acabam manchando a imagem de quem trabalha seriamente como eles. Essa confusão é “comum” por aqui também, onde - como no Brasil - existem os chamados books rosa e azul. A expressão é usada para definir o catálogo de mulheres e homens que fazem programas sexuais e são agenciados para isso. “Nesse mundo da moda, às vezes a pessoa pode se ludibriar facilmente com propostas. Pode acontecer, mas não dá para generalizar toda uma comunidade”, disse. É público e notório que nem tudo são flores neste meio. Em qualquer lugar do mundo, os cuidados são necessários para evitar que um sonho vire pesadelo. “Tem que prestar bastante atenção em qual agência você está, porque existem agências sérias e outras que não são serias”, alertou Adalton. Fernanda reforçou o alerta, lembrando que “muitas pessoas têm o sonho de ser modelo, entram em qualquer agência”, que pode ser “picareta”, onde os próprios “bookers” (agenciadores) as oferecerão para trabalhos que não tem a ver com o universo da moda e ainda afirmam que para elas serem modelos têm que passar por aquilo. “Procure uma agência séria. Procure ver modelos dessa agência. Vá no perfil da agência, veja os trabalhos que estão ali. Vá ao perfil do modelo, pergunte se a agência é séria de verdade”, recomendou. Os dois lembram que muitos podem cair em golpes quando acreditam que estão indo viajar em busca de oportunidades no mercado internacional da moda, mas acabam sendo vítimas de tráfico de pessoas. Pandemia e um plano B A África do Sul é o país que, até hoje, registrou o maior número de pessoas com COVID-19 do continente africano. E a pandemia atingiu em cheio o setor no qual esses brasileiros trabalham. O presidente Cyril Ramaphosa implementou um dos mais rigorosos confinamentos nacionais obrigatórios do mundo. Como modelos, os baianos recebem apenas se trabalham. Mas houve um momento em que os trabalhos pararam de aparecer. Antes dos casos surgirem por aqui, o coronavírus já estremecia a Europa. Por conta disso, os clientes europeus já tinham interrompido campanhas publicitárias com cenários sul-africanos. Foi quando um passatempo virou uma alternativa para garantir a renda do casal. Adalton começou a se dedicar à cozinha e experimentar receitas, como de bolos. Eles decidiram começar a vender a produção e criaram a Baianos in Cape Town. O foco é comida baiana, mas também vendem pão de queijo e feijoada. “Foi uma forma de não se amedrontar com a dificuldade que estava se iniciando”, lembra Fernanda. A embaixada e o consulado-geral do Brasil na África do Sul chegaram a bancar um avião inteiro para enviar brasileiros de volta no início da pandemia. Mas mesmo diante da incerteza sobre o futuro, o casal resolveu não voltar para São Paulo e, naquele momento, investir da venda de comida, o que os conecta diretamente com as suas famílias. A gastronomia brasileira é diversa, assim como a africana. Fernanda conta que chegou a chorar em um evento com um chef nigeriano quando provou um prato que a trouxe lembranças da infância. “Ele fez um tipo de sopa, que eu não sei dizer qual era o nome, mas que lembrou em cheio a comida que a minha avó fazia para mim. A gente tem o sarapatel, que é típico da Bahia, mas a forma com que minha avó fazia em casa era diferente. E era muito semelhante com a forma como ele fazia. Quando eu botei na boca, eu comecei a chorar”, disse. Aliás, os dois hoje se dizem fãs da comida nigeriana, exatamente por terem se identificado especialmente com os pratos e temperos deste país africano, mas a feijoada angolana, com verduras, também caiu no gosto do casal baiano. “Meu Deus, a minha avó fazia exatamente isso”, destacou Fernanda. Os trabalhos como modelos já voltaram, o que eles conciliam com a venda de comida brasileira, sem falar na produção de conteúdo para o canal que criaram na internet para falar da experiência deles na Cidade do Cabo. Dizem que, por enquanto, uma atividade não atrapalha a outra. Inicialmente a meta do casal era viver na África do Sul por três anos, cumprindo o contrato com a agência de modelos, que começou em 2019 e acaba no fim deste ano. Quando perguntados se já decidiram o que fazer quando o contrato acabar, os dois responderam juntos: vão continuar na África do Sul. Com a notícia de que a agência de modelos sul-africana quer renovar o contrato dos baianos por mais três anos, os dois já se preparam para extender os vistos de trabalho, o que não é algo tão simples na África do Sul. “A gente já criou raízes”, finalizou Fernanda.
    9/11/2022
    11:04
  • Economista Carlos Lopes lança novo livro e diz que Brasil pode participar da mudança estrutural da África
    O economista da Guiné-Bissau Carlos Lopes lança um livro escrito com o economista do Zimbábue George Kararach onde fala sobre percepções que considera deturpadas sobre a África, além de novas narrativas sobre o continente e desenvolvimento no século XXI, passando pela necessidade de se investir na industrialização da região e oportunidades. Lopes diz não ter dúvida de que, no campo econômico, um dos maiores desafios da África é a industrialização. Mas entre os esteriótipos que o ocidente construiu sobre o continente africano, o que mais o incomoda é o de que a África nada mais é do que um fornecedor de matérias-primas, sem transformação. “É exatamente o modelo colonial”, disse. “Nós no livro tentamos demonstrar que há possibilidades reais de transformação estrutural, que há países que já estão fazendo a coisa certa, mas, evidentemente, não são a maioria. E, portanto, é preciso muito mais empenho para que esta transformação tenha lugar”, explicou Lopes. Os dois autores vêm trabalhando sobre o tema desenvolvimento econômico e dividiram as tarefas para escrever um livro a quatro mãos. Lopes contou à RFI que Kararach focou mais nos estudos de casos, enquanto ele cuidou da complexidade da narrativa de interpretação de todo o processo de transformação estrutural. Colonização O economista guineense, que foi secretário executivo da Comissão Econômica das Nações Unidas para África, disse que há características estruturais, históricas e culturais comuns entre os países africanos, principalmente em se tratando de heranças do período colonial. “Apenas um país africano não foi colonizado completamente, a Etiópia, mas tem muitas características comuns com os outros”.  Para ele, as diferenças que existem não impedem o debate sobre a África, em se tratando de representação global, em matéria de comércio. “Por isso os africanos têm que lutar, em termos internacionais, por um espaço de manobra, já que é mais fácil aparecerem no seu conjunto”, afirmou. A maior parte dos países desta região enfrenta problemas sistêmicos. “Quando olhamos para as diferenças, o que importa neste caso concreto abordado no livro é ver aqueles países que estão fazendo transformações estruturais e os que não estão fazendo”, disse. Quando se fala para quem não conhece a África, o economista reforça que é preciso enfatizar o tamanho geográfico do continente, o que normalmente as pessoas não consideram. “Muita gente não sabe que a China e a Índia são ‘pedacinhos’ em relação à massa territorial da África”, lembrou. A Rússia “corresponde, em massa territorial, a mais ou menos um terço da África”, lembra. “Temos essa visão cartográfica completamente errada, e também essa visão errada em termos históricos, culturais, políticos. No livro tentamos corrigir essas percepções negativas”, disse. Ausência no programa eleitoral O economista afirma que não o surpreende o fato de apenas três candidatos à presidência do Brasil terem citado o continente em seus programas de governo. Mas lembra que “a África vai ter um papel muito importante no futuro e muitos países já o reconhecem”, citando o exemplo da Turquia, que vem aumentando consideravelmente sua presença no continente africano. Lopes afirma que “o Brasil tem muito o que aprender”. Lopes finaliza a entrevista deixando um recado a quem vai governar o Brasil a partir de primeiro de janeiro de 2023. Para ele, o país “caiu outra vez na armadilha de exportação de commodities”, depois de um processo de industrialização classifica de "bastante bem sucedido". “Temos problemas comuns e podemos desenvolver capacidades também de respostas comuns a nível de negociações internacionais”, disse o especialista africano.
    9/3/2022
    5:55
  • Carioca que assessora bancos e governos diz que Brasil está perdendo oportunidades na África
    Formado em Direito, Bernardo Weaver foi seduzido pelo mercado financeiro logo no início da vida profissional. O sotaque não nega: ele é “da gema”. O primeiro emprego do carioca foi em um banco e ele acabou se tornando um financista. Fez MBA em Finanças nos Estados Unidos, onde mora há 20 anos. Vinícius Assis, correspondente da RFI na África do Sul Weaver já trabalhou para o Banco Mundial, desenvolveu projetos em países europeus e latino-americanos, o que ele considera marcante na própria carreira. Também deixou seus conselhos pelo Oriente Médio. Há três anos fundou a própria empresa para prestar consultoria a bancos e governos, inclusive na África. O primeiro país do segundo continente mais populoso do planeta onde atuou foi Moçambique, em 2014. “Foi um lugar que me marcou muito. Mostra a grandeza do nosso povo, o quanto a gente fez e o quanto a gente ainda pode fazer enquanto brasileiro”, disse. Em geral, os moçambicanos se identificam muito com o Brasil. Costumam ser muito bem informados sobre os artistas e também a economia brasileira. No interior do Senegal, em uma cidade chamada Ziguinchor, ele diz que conheceu também pessoas vindas de Guiné-Bissau, outro dos seis países africanos de língua portuguesa. “É uma região linda”, destacou, apesar de se lembrar dos desafios enfrentados pelos locais, como conflitos internos. “Acho que está mais calmo. Vale a pena visitar, sim”, ressaltou. O trabalho em Moçambique foi até 2019. “Eu estava ajudando governos municipais a aumentarem suas arrecadações, a diminuir a pressão fiscal que eles sofrem”, explicou. Dois grandes desafios de cidades africanas são moradias irregulares e a inadimplência de impostos, sem falar na grande dependência que municípios têm de repasses de verbas nacionais. “É melhor que as cidades tenham suas próprias fontes de receita e, com isso, os governos nacionais terão mais capacidade de pagar suas dívidas, investir em infraestrutura e melhorar o desenvolvimento econômico e a produtividade do país”, disse. A Mauritânia foi outra nação onde ele trabalhou, também no noroeste africano, como o Senegal, país, aliás, que o brasileiro diz ser o mais avançado dos dois. “A Mauritânia é um país muito menos desenvolvido, país muçulmano muito radical. Mulheres usam burca, você não pode tocar nelas”, contou, comparando este país que fica na região do deserto do Saara e também é banhado pelo oceano Atlântico com a Turquia, onde “mulheres usam calça jeans e andam sem véu no cabelo”. Infraestrutura sanitária deficiente requer investimentos No Senegal e na Mauritânia, ele analisou os sistemas de gestão de coleta de lixo para encontrar meios de fazer este tipo de trabalho com menos impacto danoso no meio ambiente. O objetivo também era aumentar a extensão da coleta e diminuir a insalubridade urbana, com um sistema de coleta de lixo eficiente. “O deles não era. Havia muita sujeira e lixão a céu aberto, o que gera doenças e cria um aspecto visual e econômico depreciado para a cidade”, disse. Ao detalhar o trabalho, o brasileiro contou que “fazia o modelo financeiro, via quanto ia custar os caminhões, fez um plano dentro das cidades para ter pontos de transferência para o lixo poder chegar ao aterro sanitário e ao centro de reciclagem para que pudesse ser disposto de forma ecologicamente correta”. Mercado de ações na Etiópia O último desafio está sendo criar um mercado de ações na Etiópia, um país de 120 milhões de habitantes sem praça financeira. O carioca vê a Etiópia como "um país que está meio perdido no mundo, em termos de relações políticas internacionais”. Neste aspecto, Weaver destaca uma possibilidade que o Brasil está perdendo, já que nos últimos anos veio se distanciando do continente africano. “O Brasil, que é um país que está isolado atualmente, podia chegar ali, botar um pouquinho de dinheiro e ia conseguir tudo. É o que os chineses estão conseguindo. E a gente tem uma afinidade cultural com eles um milhão de vezes maior. O pessoal da Etiópia parece 80% da população brasileira fisicamente”, disse. Ele afirma que poderia passar horas dando argumentos favoráveis a quem quer que seja sobre as possibilidades de investimentos no continente africano e na Etiópia, apesar do país enfrentar uma guerra civil, no norte, e estar na região chamada de o chifre da África, que sofre com a pior seca em 40 anos. “É quase impossível nāo ter (alguma oportunidade). Sempre tem alguma coisa”, frisou. “O mercado de ações da Etiópia certamente vai ter uma volatilidade muito grande no início, mas tem muitas empresas boas lá: a estatal de aviação é boa, a empresa de telecomunicações é boa, várias outras que estarão na bolsa de valores. É uma oportunidade tremenda para o Brasil ter um pé na África”, aposta. O Banco Central etíope quer agora a fusão de bancos locais para que possam enfrentar a concorrência do mercado internacional. “Se a Etiópia abre o mercado financeiro com bancos fracos, os bancos europeus e os dos países mais ricos da África vão entrar e destruir tudo, eles têm que se defender, com o fortalecimento do setor bancário. Foi o que eu falei para os diretores do Banco Central. Não sei se eles acataram ou tiveram a mesma ideia”, falou. De um modo geral, Weaver ressaltou que a “África é um lugar com potencial absurdo”, garantindo que a probabilidade de se conseguir bons projetos nesta região é grande. Ele repete que a China está aproveitando muitas oportunidades no continente. “O Brasil devia dar uma olhada lá para ver se tem alguma coisa que serve para o país”, salientou. Ele reforça que não diz isso com base em opinião, mas respaldado matematicamente. “É técnico! Muito difícil uma pessoa me provar que estou errado. Obviamente tem algo para fazer ali. Tem que analisar e ver se te interessa ou não”, disse. Assim como no continente americano, o brasileiro destaca que os países africanos também são diferentes. Rebate as críticas dos que olham para África como uma região hostil e violenta. “Para quem cresceu no Rio de Janeiro e em São Paulo, não existe ter medo de ir para o continente africano por causa da violência. No Brasil alguém te mata para roubar seu celular”, justifica. Sem exploração colonial Ele reconhece que “obviamente há crime”, mas diz que se sente totalmente seguro nas capitais dos países por onde passou. Por fim, Weaver defende que a elite intelectual do Brasil precisa se aproximar do continente africano. Ao falar em possibilidades de investimento, explica que isso não precisa necessariamente seguir um modelo colonial de exploração. “Se o Brasil conseguir investir, criar fábricas na África, a produtividade deles (países africanos) cresce muito mais. Obviamente o brasileiro que investir tem uma probabilidade alta de ganhar dinheiro, mas isso vai ajudar a desenvolver muito a África. Ao contrário dos países que tiram muita vantagem, é possível fazer algo mais equilibrado, adotar uma posição mais de parceria, o que sempre foi o norte do meu trabalho na África”, disse. Para o consultor, viajar para o continente a passeio é o primeiro passo para quem quer investir em um país africano. “Você vai para a África, experimenta uma cultura nova, lugar lindíssimo, um povo maravilhoso e gente de tudo quanto é tipo. Pega um avião e vai fazer turismo”, recomenda.
    8/28/2022
    7:21
  • Dos candidatos à presidência do Brasil, apenas três citam a África nos planos de governo
    A política externa não está no centro das atenções dos presidenciáveis, muito menos o continente africano, na análise do presidente e fundador do Instituto Brasil-África (IBRAF), João Bosco Monte. Para ele, poucas linhas dos planos de governo são destinadas a explicar como o Brasil vai se comportar no cenário internacional e isso fica mais claro ainda em se tratando de África. “Há pouca definição de como o Brasil vai conversar com um continente tão grande, com 54 países”, destacou. Vinícius Assis, correspondente da RFI na Etiópia Dos candidatos que se lembraram do território africano em seus programas de governo, um é negro: Léo Péricles, do UP. Os outros são brancos: Lula, do PT e Sofia Manzano, do PCB. Antes do PROS anunciar a retirada da candidatura de Pablo Marçal e o apoio a Lula, Marçal também era um dos que citaram a África no programa de governo. “Acho que é pouco”, lamentou o professor de Política Internacional e Comparada na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Dawisson Belém Lopes, diante da quantidade de candidatos que se lembraram de governos africanos em seus programas. Ele ressaltou o grande potencial do segundo continente mais populoso do planeta ao falar que, além de ter um passado em comum, Brasil e África deveriam ter um futuro em comum como prioridade. “Uma região com 1,2 bilhão de seres humanos, com um crescimento econômico acima da média global, com potencialidades evidentes em qualquer esfera das relações internacionais, com um plano arrojado de desenvolvimento, que é encabeçado pela União Africana, a Agenda 2063, um continente que tem despertado um interesse e a atenção das grandes potências do mundo deveria receber do Brasil também um tratamento prioritário”, avaliou. “A África não é só dívida histórica, não é só um passado em comum. África é presente e África é, sobretudo, o futuro.”  África nos planos de governo Ao tratar do assunto, Lula (PT) fala em defesa da soberania brasileira e da recuperação de uma “política externa ativa e altiva” que alçou o Brasil à condição de protagonista global no passado. “Reconstruiremos a cooperação internacional Sul-Sul com América Latina e África. Defendemos a ampliação da participação do Brasil nos assentos dos organismos multilaterais”, diz o documento, que ainda fala na “implementação de um amplo conjunto de políticas públicas de promoção da igualdade racial e de combate ao racismo estrutural”. O candidato Léo Péricles (UP) se mostra anti-imperialista e deixa claro no plano de governo dele que pretende “aprofundar as relações multilaterais entre os países vizinhos na América Latina e retornar aos esforços diplomáticos contra hegemônicos, com os parceiros estratégicos africanos e asiáticos. Voltar a exportar influência e excelência técnica nas áreas em que o Brasil é referência e intensificar o intercâmbio com as experiências internacionais de transformação social, sobretudo para a superação do subdesenvolvimento”. Já Pablo Marçal (PROS) resume seus planos para a pasta de Relações Internacionais em dois tópicos: blocos econômicos com países prósperos e influentes nas decisões globais e um bloco Brasil-África. “Assumimos o compromisso de aproximar as relações políticas e econômicas com o continente africano, por meio de cooperação comercial e empresarial, visando o desenvolvimento mútuo através do bloco econômico Brasil-África, que buscará o trabalho direto com as 54 nações africanas”, traz o documento. A candidata Sofia Manzano (PCB), por sua vez, se compromete a “estabelecer relações diplomáticas e econômicas com os países em África levando em conta as vantagens mútuas, trabalhando para quebrar a relação subimperialista da burguesia brasileira com esses países. Pautar a criação de uma organização de Países Exportadores de Energia, Petróleo e Riquezas Minerais em âmbito latino-americano e africano, para proteger os interesses dessas regiões frente às investidas imperialistas”. Os programas de Jair Bolsonaro (PL) e Simone Tebet (MDB) até citam o BRICS, bloco do qual a África do Sul faz parte, junto com Brasil, Rússia, Índia e China, mas não se referem em momento algum ao continente africano especificamente. Todas as candidaturas ainda aguardam validação. Enquanto potências globais, como Rússia, Estados Unidos e China, buscam cada vez mais parceiros africanos, de olho no futuro, o professor Dawisson Belém Lopes, que também é pesquisador visitante na Universidade de Oxford, diz ter a impressão de que o Brasil está ficando para trás ao menosprezar o continente africano. “Acho que transcende nossos laços históricos, culturais e identitários com a África. Todo candidato à presidência da República Federativa do Brasil deveria, por óbvio, enfatizar a África quando tratar de política externa. Acho que é o mínimo”, destacou. O advogado sul-africano Emile Myburgh, que defende interesses de quase todas as grandes empresas brasileiras na África do Sul e também de empresários africanos no Brasil, disse que o fato de dois terços dos candidatos à presidência ignorarem o continente não o surpreende. “Dos dois lados há muita ignorância sobre o outro. Tem muita falta de conhecimento sobre nossos continentes. E os candidatos apenas refletem quem os apoiam. ¨Por isso tem uma minoria que fala sobre África”, disse. Racismo estrutural e institucional Para a doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo Paola Prandini, que atualmente mora em Maputo, capital de Moçambique, o fato diz muito sobre o racismo estrutural e institucional ao qual o povo brasileiro está submetido. “Infelizmente, essa estrutura desigual e extremamente injusta a que nós temos vivido historicamente, desde o processo de colonização portuguesa, no caso do Brasil, tem mostrado o quanto não se conhece do continente africano, mesmo sendo este o berço da humanidade. E sem África não existiria Brasil, uma vez que falamos de um país em que 56% da população se autodeclara negra e, portanto, afrodescendente”, afirma. Paola Prandini disse ainda que essa postura da maioria dos candidatos à presidência no Brasil “também demonstra o silenciamento proposital que acontece em relação a essa estrutura verticalizada e muito condicionada pela branquitude brasileira, o que também faz com que haja essa falta de interesse de perceber a obrigatoriedade e a emergência de se tratar de um continente que tem sido considerado globalmente como o continente mais importante do mundo nos próximos anos”. Brasil vem se afastando da África Nos últimos anos, o Brasil se distanciou do continente africano – um recuo brasileiro que começou antes do atual governo, de acordo com o presidente do IBRAF, João Bosco Monte. "O Brasil, desde o governo da presidente Dilma, depois passando pelo presidente Temer e, agora, com o presidente Bolsonaro, não olhou com a atenção devida para o continente africano. As relações se esfriaram”, disse. Para ele, isso ocorreu por decisão direta dos governantes. “Não houve uma intenção direta de fazer com que os movimentos de um lado e outro do atlântico se potencializassem. Ao contrário”, disse. Bosco lembra que a Dilma Rousseff teve poucas experiências com o continente africano e isso se repetiu com Michel Temer. “Não houve uma deliberada intenção de priorizar, de viabilizar as relações diretas”, reforçou, antes de destacar que a relação do Brasil com a região piorou com o presidente Bolsonaro. “Não houve uma única intenção de ter uma conversa mais direta com o continente africano. O presidente Bolsonaro nunca viajou para a África. Isso é muito ruim nos seus quase quatro anos de governo”, lamentou. Desde 2012, anualmente o IBRAF organiza o Fórum Brasil-África, com o objetivo de unir interesses em comum dos dois lados do oceano atlântico entre empresários, organizações, pesquisadores e, claro, governos. “Haveria de existir uma intenção de conversar com economias grandes, como Nigéria, África do Sul, Quênia, Marrocos, República Democrática do Congo, que têm, certamente, muito a contribuir com a agenda comercial do Brasil. Infelizmente, isso foi relegado e o ruim é que alguns países ocuparam, de uma forma muito direta, espaços que o Brasil já tinha estabelecido, como parcerias com alguns países do continente africano”, disse João Bosco Monte. Recados ao próximo governo Além de advogado, Emile Myburgh também é piloto de avião e acredita que o próximo governo, independentemente de quem vencer, deve se envolver na retomada de voos diretos entre o Brasil e a África do Sul. Dos 12 voos operados por duas companhias aéreas que semanalmente ligavam São Paulo e Joanesburgo até 2020, suspensos por conta da pandemia, nenhum voltou a operar. Incentivar o restabelecimento desses voos por uma ou mais companhias aéreas deve ser um objetivo do próximo governo, na opinião dele. Atualmente, passageiros que viajam do Brasil para a África do Sul, e vice-versa, a negócios ou a passeio, precisam fazer escalas em locais como Dubai, Doha, Adis Abeba, Turquia e Luanda, deixando a viagem mais longa, cansativa e cara. “Isso não é bom para a aproximação dos dois países e, visto a falta de conhecimento entre os dois países, eu não vejo esses voos sendo retomados sem um incentivo político”, disse. Em seguida, o advogado recomenda que o próximo a ocupar o Planalto se lembre da primeira década deste século, quando as maiores empresas e bancos sul-africanos se estabeleceram no Brasil e as maiores empresas brasileiras vieram para África. “Isso pode ser retomado e repetido”, lembrou. “Aquela relação que se deu naquele momento foi muito importante para que interesses africanos pudessem ser também interesses brasileiros”, destacou João Bosco Monte. Na opinião da doutora Paola Prandini, investir em conhecimento sobre países africanos deve ser prioridade. Ela destaca a necessidade de se fazer cumprir a lei federal 10.639, de 2003, que instituiu que todas as escolas brasileiras devem ter conteúdos relativos à história e cultura africana e afro-brasileira como parte dos currículos. “Infelizmente, quase 20 anos após a aprovação dessa lei, nós ainda sofremos com uma não viabilidade periódica da aplicação dessa lei”, lembra A educação, para ela, é essencial em qualquer processo político. “Para que tenhamos cidadãs e cidadãos conscientes, e que ajam de forma coerente com a sociedade em que vivem, não há como desconectar o Brasil do continente africano”, concluiu.
    8/21/2022
    4:56

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